quinta-feira, 1 de julho de 2010

Kit obrigatório de leitura para o iniciante

Você quer começar a colecionar selos?
Tem um ajuntado de selos em casa e não sabe como organizá-los, o que significam?
Você é o tipo de pessoa que precisa de um livro para ajudá-lo a iniciar algum empreendimento?

Forte é o meu arrependimento de não ter recomendado isso antes. A filatelia brasileira conta com uma literatura vasta, cheia de referências para todo tipo de filatelista, maximafilista e numismata especializado. O iniciante, entretanto, precisa de obras acessíveis que ensinem o beabá de forma acessível e interessante. E nós temos, sim, o que eu considero um conjunto de obras que se complementam e suprem toda necessidade de informação para o iniciante no colecionismo de selos postais.

Esse conjunto é composto por duas obras:

FILATELIA - Da D. Ana Lúcia Loureiro Sampaio
e
MANUAL DE FILATELIA - Do Prof. Carlos Daniel Dumpel César

É muito simples descrevê-las: São obras de custo baixo, com um rico conteúdo básico para o iniciante em filatelia e, na minha opinião pessoal, com visões diferentes que se complementam.

O livro "Filatelia" já está na sua terceira edição e tem um conteúdo de gostosa leitura. É como se eu estivesse sentado conversando com a autora, que explana suas opíniões, conta a história do selo e traz algumas ilustrações convenientes. Os textos são bastante dissertativos, que permitem uma maior fluência na leitura. O final do livro tem duas referências muito úteis: O "Vocabulário filatélico" e a "Relação de países, estados, localidades e entidades oficiais emitentes", este útlimo auxiliando na identificação dos selos de regiões que não conhecemos.

O livro "Manual de Filatelia" está na sua segunda edição e é um manual com uma visão mais técnica, com igual riqueza de informações sobre o colecionismo de selos. A parte básica é igualmente completa, trazendo os passos iniciais a todo aquele que deseja ser filatelista, e traz também capítulos de referência, como o "Regulamento das coleções temáticas", "Emissões nocivas", e também os apêndices: "Dicionário ilustrado de filatelia" e "Guia internacional do filatelista". Este último traz os nomes dos países da forma que estão escritos nos seus selos, o que é muitas vezes um mistério para o iniciante (Ex.: Magyar - Hungria ou Shqpitare - Albânia).

Sem dúvida, com esses dois livros em mãos, não tem como não dar os passos iniciais para ser um bom filatelista. Vale a pena conferir!

Falsificações

Muito se tem o que falar de falsificações de selos, mas podemos dividir os selos falsos em duas principais categorias:

- Selos para fraudar o correio
- Selos falsos com finalidade de enganar filatelistas


Os selos falsos para fraudar o correio, que cumprem sua missão como pequenos criminosos colados em cartas, (na verdade criminosos são os que os fazem) são raros. Por serem raros é que justamente se tornam algo muito interessante. Na filatelia brasileira temos alguns casos interessantes, como o selo falso de Betim (selo regular que circulou em Betim-MG), o falso Paraná (da série Madrugada Republicana, no início do século XX), e um dos mais recentes episódios foi com um selo regular há alguns poucos anos atrás. Inclusive nesse caso o falsificador teve um erro de digitação na legenda do selo, o que facilitou a descoberta da falsificação.
É lógico que selos falsificados para fraudar o correio, mas que não circularam, não devem nem ser considerados, mas de alguma forma, os selos que circularam têm valor como item colecionável para os interessados.

Quanto aos selos falsificados para enganar colecionadores, esses realmente não têm nenhum valor filatélico. De qualquer forma, são vendidos como facsímiles (réplicas) ou às vezes, de má-fé, encontram-se muitos selos na internet à venda como sendo selos verdadeiros mas são falsos. Há que se tomar muito cuidado com isso. Às vezes não é nem má-fé, é ignorância de quem vende, mas realmente é uma situação complicada, pois incorre em muito prejuízo para os colecionadores mais desavisados.

Cabe ressaltar que os falsos de Jean de Sperati são exceção. Sperati dedicou sua vida a ser um dos grandes falsários filatélicos, e suas peças se encontram com valor muito elevado. Mas se trata de valorizar a arte, a semelhança que ele conseguia obter dos selos verdadeiros. A julgar pela qualidade da falsificação, os selos de Speratti são obras de arte em miniatura. Ele falsificou os nossos olhos-de-boi, entre outras peças clássicas do mundo todo. Grande artista, Sperati.

Eu queria comentar sobre o que poderia ser considerada uma subclasse dos selos falsificados para enganar colecionadores: aqueles que são peças verdadeiras, mas têm suas características modificadas no intuito de serem mais valorizadas. Vou explicar com três exemplos práticos:

- Um olho-de-boi cujo carimbo verdadeiro foi removido quimicamente e sobre o qual se aplicou um carimbo falso;

- Os famosos denteados dos selos verticais e coloridos do Império, que têm a sua grande maioria com a denteação falsificada;

- Peças filatélicas que foram compostas de selos e envelopes, obliteradas novamente, para gerar franquias mistas, raras, inexplicáveis.

O primeiro exemplo, do olho-de-boi, me fez uma quase vítima. E junto comigo, um monte de gente.
O meu primeiro olho-de-boi eu comprei surradinho, coitado, com aminci, furo, etc, afinal com 20 anos de idade a gente não tem uma renda boa pra fazer tamanho investimento ainda. Quando realmente comecei a ganhar meu salário, depois de me formar, pensei: chegou a hora de me dar de presente um olho-de-boi daqueles, caprichados, que se pode considerar uma peça de luxo.

Não entendo muito de carimbologia, mas sei dizer quando esse ou aquele carimbo é importante numa peça, ainda que não saiba precisar seu valor. Num dos meus comerciantes e amigos de grande confiança, deparei com um olho-de-boi 60 réis extremamente simpático, para não dizer pomposo. Margens perfeitas, nenhum aminci, impressão forte, coisa bonita mesmo. Ele ostentava AQUELE carimbo "Ceará", em vermelho sangue, 90%. Estava caro, mas ainda razoável pela qualidade da peça. Pensei: é esse. Lá foram 4 prestações, como uma poupança para o futuro.

Recebi o selo e pensei ter sido a melhor compra de uma peça filatélica que eu tinha feito. Mas passou um mês, e fuçando a literatura filatélica científica que me apraz, encontrei um artigo de grande pesquisador filatélico  sobre falsificações e montagens de peças do Império. O mesmo artigo foi publicado em revista internacional, que reúne artigos de grandes experts sobre falsificações filatélicas. Uma das peças mostradas no artigo era exatamente o selo que eu comprei! E a conclusão: "Selo autêntico, mas carimbo falso". Ora, o carimbo Ceará não constitui tamanha rareza, mas em vermelho-sangue!, não se conhecia nenhuma obliteração. Ademais, o carimbo estava realmente esquisito, muito diferente do carimbo Ceará em preto encontrado em selos e sobrecartas. Mas se dependesse só de mim? Se não houvesse um catálogo de carimbos, um artigo como aquele... o selo estava aqui brilhando no meu álbum.

Na minha cabeça veio: "Nem tudo o que reluz é ouro".
Perdi meu dinheiro? É claro que não, afinal não comprei o selo em qualquer lugar e sim num comerciante muito bom, que também não havia percebido que se tratava de uma falsificação. Tive meu dinheiro de volta, e lamentei, porque a peça era boa mesmo, mas não valia a pena ficar com ela pelo preço que paguei, nem como referência.

Curiosidade: Passaram-se dois anos, e o selo apareceu em um leilão. Encontrei a foto do malandro (o selo) no catálogo, e imediatamente me comuniquei com o leiloeiro, que me contou que não tinha conhecimento de que era carimbo forjado, mas foi comunicado do fato e retirou prontamente a peça do leilão.

Às vezes eu penso: naquela época eu podia ter ficado com a peça. Afinal o selo era verdadeiro, e estava muito bom. Seria no mínimo uma peça interessante para figurar num cantinho da coleção, como um alerta para o futuro. E me veio à cabeça a questão: até que ponto os selos verdadeiros ou peças forjadas por mal-intencionados devem ser valorizados? Afinal, um dia elas foram peças filatélicas honestas, não? É justo expurgá-las, extingui-las?
Quando comercializada, até que ponto ela deve ser financeiramente valorizada? Como referência ou resgatando a sua existência como peça legítima?

Fica aí a questão, e a lição para se tomar muito cuidado com o que parece muito bom, muito raro. Nem todo comerciante idôneo e honesto tem experiência técnica para dizer se aquela ou essa peça é falsa, principalmente nesses casos complicados. Por isso sempre é bom consultar um expert. Vale a pena pagar por um certificado para dormir tranquilo. E assim a filatelia investigativa e os "causos" filatélicos vão fazendo história.